O Natal na minha terra, no Alentejo, no meu tempo de gaiato
Gaiato era como chamavam aos meninos pobres da minha geração. Os ricos eram meninos, mesmo que tivessem cinquenta anos ou mais e ai de quem os tratasse por tu...
Todos os meninos acreditavam que o Menino Jesus vinha pela chaminé da casa e trazia as prendas. Todos esperavam com ansiedade pela noite para verem o que o menino trazia para eles.
Era com muito amor e carinho que as crianças falavam do Menino Jesus, este menino que ninguém via e que todos os anos teimava em descer pela chaminé, para trazer os pequenos chocolates e rebuçados, pois pouco mais do que isso os nossos pais podiam comprar.
Lembro-me que a minha mãe trabalhava no campo a apanhar a azeitona, no mês de dezembro, e que o patrão dava a todos os trabalhadores um madeiro para a lareira e meio litro de azeite para fazerem as filhós.
No dia 24 toda a gente trabalhava até à noite e só depois é que o meu pai ia com a carrinho de mão feito de madeira, usado para transporta a água de uma fonte a 3 km, buscar o dito madeiro. Só depois se ia fazer o jantar que era a habitual carne de porco frita, a que se chamava carne à banca. Eu e as minhas duas irmãs Rosa e Angélica, estávamos ansiosas para podermos comer uns pedacitos dessa carne. Depois faziam-se as filhós com açúcar, canela e água de mel. Também se comiam algumas azevias. Era hábito os vizinhos visitarem-nos e cantar ao Menino Jesus, saboreando algumas filhós e azevias de cada casa, enquanto tocavam a ronca – instrumento feito com uma manilha, uma pele de coelho e uma cana miudinha -, cantando as melodias ao salvador.
À meia noite era a missa do galo à qual quase toda a gente ia, mesmo que não fossem rezar, não eram muitos os que iam com devoção, mas sim para se encontrarem com os amigos e beberam umas garrafas de aguardente, no adro da igreja, onde se fazia uma enorme fogueira que durava o resto da noite.
Dia de Natal, 25 de dezembro, faziam-se os preparativas para o almoço, os homens iam à adega comprar um litro de vinho, que era o permitido por lei, e que custava vinte e cinco tostões, era muito forte e dois copos chegavam para ficarem embriagados.
À noite havia o baile no salão. Os gaiatos não podiam entrar, ficavam à lareira a gozar o resto do madeiro, pois o frio era muito.
Era uma época muito pobre mas havia muito amor e carinho.
João Santos
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